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Consultório Poético


Rolo Compressor:
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    Quinta-feira, Novembro 26, 2009

    ARTISTA DO ANO



    Recebi o 1º Prêmio Artistas Gaúchos, na categoria Literatura. O troféu foi entregue na noite de quarta (25/11), no Teatro de Arena, em Porto Alegre (RS). Mais de oitenta colegas escolheram os destaques de 2009 em cinco categorias (Artes Cênicas, Artes Plásticas, Música, Ilustração, Fotografia e Literatura).

    Os outros premiados são:

    Artista do Ano – Artes Cênicas: Zé Victor Castiel
    Artista do Ano – Música: Adriana Deffenti
    Artista do Ano – Artes Plásticas: Liana Timm
    Artista do Ano – Ilustração: Jotapê
    Artista do Ano – Fotografia: Yara Baungarten

    6:32 PM :: Comentários:

    COM A CABEÇA NA LUA
    Arte de Alfredo Volpi
    Para o amigo Marcos Terras

    Fabrício Carpinejar



    Eu encontrei minha cidade vocal: Concórdia.

    Todas as minhas vergonhas fonoaudiólogas estariam resolvidas se vivesse aqui no interior catarinense. Rua é sempre lua, arara é alala, o sotaque perdoa os tropeços da língua.

    Não sofreria censura, muito menos deboche. Metade dos traumas não produziria inconsciente. Aliás, o trauma viria a ser charme. Eu me vestiria de traumas para o baile. Seria considerado um italiano legítimo ao invés de um gringo de segunda categoria gramatical.

    Mas não é unicamente essa característica que me fascina no município de 65 mil habitantes (ainda não me contando). Saí para comprar Diazepan, a insônia da poltrona do ônibus e do avião ameaçava a tranquilidade da cama. A igreja badalou meio-dia. Cumpri pernadas por lombas e travessas e não enxergava uma loja aberta. Um silêncio de portas que destoava do alarido da fome. Luto? Protesto?

    Que nada, sesta! Até 13h30, o comércio fecha. Pontualmente. Sem recurso judicial. Não adianta parar na frente da vitrine e fazer serenata. Um minuto a mais das 12 horas e as cortinas de ferro são desenroladas. Poderia esmolar, inventar uma história inacreditável de pressa e urgência, argumentar que minhas crianças passam necessidade, esqueça, não serei convidado ao interior do estabelecimento. A sesta na cidade é inegociável. Os funcionários e gerentes vão almoçar em casa e dormir 30 minutos. O cochilo é obrigatório para manter a ordem e a paz pública. Um sinal de trânsito filial obedecido desde a auto-escola, indiscutível como respeitar a faixa do pedestre.

    É o que perseguia e não desconfiava: a sesta na rede, a sesta no sofá, a sesta no meio do expediente para não me sentir acabado de noite, para ter mais paciência com a família, para não ofender ninguém pelo estresse acumulado. Atenderia ao telefone com calma e puxaria conversa com a televisão. Quantas brigas seriam evitadas?

    O pequeno pedirá para brincar e aceitarei, o pequeno pedirá para que leia um livro e improvisarei uma bandeja de fábulas com o travesseiro. Não serei ofegante com as estrelas. Dormirei na escada-caracol do corpo da namorada, sem me indispor depois com os degraus das horas.

    Eu transbordaria gentilezas e mimos, não esqueceria o dia do aniversário dos amigos, deixaria o sábado e domingo para não descansar e aprender marcenaria, não sofreria mais com o pouco espaço aos livros, não dependeria de favores da madeira, eu mesmo armaria estantes para o resto da vida.

    Meia hora salva o casamento, mata a saudade do lar, abrevia a semana, diminui o tempo de serviço, recupera o humor.

    Meia hora e temos duas manhãs num único dia, o café da tarde recupera o sentido, a preocupação enfrentará resistências, não colocaremos a mãe ou o pai num asilo, não demitiremos amigos por justa causa, maridos e esposas dispensarão os amantes, os motéis ficarão mais baratos, os gramados estarão cortados, os filhos farão a lição antes da cobrança.

    A sesta é sindical. É o remédio que procurava. Para não mais me vendar com a tarja preta.

    1:43 PM :: Comentários:

    OSÓRIO
    Arte de Rodrigo Rosa

    27/11 (sexta-feira), 18h
    24ª Feria do Livro de Osório (RS)

    Encontro e Bate-Papo
    Obra recomendada: Filhote de Cruz Credo (Girafinha)
    Local: Palco da Feira
    Largo dos Estudantes
    Informações: (51) 3601 2179

    1:35 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Novembro 25, 2009

    O GARFO DELA, A MINHA COLHER
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    No almoço, fico muito irritado quando alguém complementa meu prato com sobras do seu.

    Selecionei as cores, dividi as porções, entrei em dúvida, tentei compor um estilo, eu me dediquei a abrir as tampas e fumegar desejos. Não foi aleatório, corresponde a um empenho pessoal, a um gosto do momento.

    A demora não é dúvida, é paixão. Escolho a comida pelo perfume.

    Mas minha namorada pensa que como pouco, não compenso o esforço do meu dia, que sonego vitaminas, que não tenho condições de seguir uma alimentação balanceada. E sempre inventa de me doar um pedaço de carne. Acho que ela já pega um a mais aguardando para levantar a ponte do rio Guaíba.

    No final da refeição, surge o guindaste de seu garfo arremessando um bife. E um bife coberto de arroz, brócolis e suflê de queijo que ela estava comendo. Um bife com o passado recente de sua mastigação.

    - Come um pouco mais, não custa nada.

    Ela não pergunta se quero. Desova o morto no meio da louça. Um suicídio bovino. Pum. Lá estou com o tartarugaço emperrando a conclusão da fome e agora condenado a defender por dez minutos que não é educação, não há realmente interesse em devorá-lo.

    Para ser honesto, às vezes ela me pergunta, mas depois de lançá-lo ao meu território. Como não sei me cuidar, é sua crença, não devo reagir. Representa uma questão prioritária de saúde.

    Guardo a convicção que o existencialismo foi criado na hora em que Sartre recusou o foie gras repassado por Simone de Beauvoir.

    Complicado explicar que minha magreza não é de ruim, é do bem. Apesar de ser chamado de panqueca na infância, me vejo elegante como uma esfiha.

    Aquilo me tira do sério. Meus pais e irmãos faziam a mesma transferência na infância. Tenho jeito de Banco de Alimentos. Eu nunca conseguia finalizar pelas caçambas derramadas dos meus vizinhos.

    A raiva me dá razão e não me permite enxergar o quanto também sou desagradável. Conviver consigo muito tempo não é saudável. Recomendáveis cogumelos alucinógenos na adolescência ou férias de personalidade com os filhos. Eu me perdoo com mais facilidade do que desculpo os outros. Ou me vingo nos outros o que não perdoo em mim.

    Uma de minhas fantasias românticas consiste em servir morango, chocolate, sorvete na boca da namorada. Fondue, então, é perfeito para atiçar sua língua, vê-la morder os lábios, limpar com beijo a calda em seu rosto. Já estou excitado em lembrar.

    Durante onze meses, exercitava meu trapézio erótico, encaixando iguarias e frutas em seus dentes e aproximando as pálpebras de sua garganta como uma endoscopia (vale um estudo a excêntrica mania de espiar onde a comida vai pousar).

    Nem reparava suas sobrancelhas assustadas. Imitava os vídeos dos canais pornôs e das propagandas de motel. Confiava inteiramente que agradava.

    Descobri na última sessão de colheradas que ela odeia que coloquem comida em sua boca. O garfo que reclamava dela é a minha colher. Acha que a trato como um bebê.

    Escuta por dentro o “olhe o aviãozinho” de sua mãe.

    Não sobrevivi ao acidente aéreo. Ainda estou me procurando no oceano de seus olhos.


    Coluna no site Vida Breve

    7:23 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Novembro 24, 2009

    OS PONTEIROS ESTÃO LOUCOS
    Arte de Joan Brossa



    Rolo Compressor analisa a fase final do Brasileirão.

    "Não diria que é um campeonato, mas um balde de caranguejos."

    "O curioso é que ninguém mais joga dependendo de si, somente o São Paulo. Vinte times fofoqueiros, interessados na vida do outro. O desempenho é transparente, não surgiu esquadra com 60% de aproveitamento. O campeão terá menos do que a média escolar."

    Além da cor local e sanguinolenta, o site ganha um correspondente internacional. De Paris, o psicólogo gaúcho Manoel Madeira faz um ensaio sobre a polêmica mão de Thierry Henry, que tirou a Irlanda da Copa do Mundo e classificou a França.

    Espie!

    9:43 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Novembro 23, 2009

    CONCÓRDIA



    7:04 PM :: Comentários:

    POR QUE ELE DESAPARECEU?



    Oportunismo ou falta de condições financeiras? Entenda angústia de uma apaixonada, desconfiada do sumiço de seu namorado.

    Depois de uma longa férias, Consultório Poético reabre o e-mail. Leia minha resposta e opine.

    "Acreditamos no improvável antes de acreditar no mais óbvio. Não queremos acreditar naquilo que acena em nosso rosto, preferimos buscar desculpas mais longe para não enterrar a paixão."

    12:02 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Novembro 20, 2009

    CADEIRA DE BALANÇO NO LUGAR DO DIVÃ
    Arte de Maurice Dennis

    Fabrício Carpinejar



    Certos amigos e amigas já usaram esse recurso cênico para explicar uma carência ou pontuar uma tristeza ancestral:

    - É que não fui amamentado quando nasci.

    Não suporto manha de mercado, muito menos crise infantil na meia-idade. Minha vontade é buscar um litro de leite e derramar num prato de sopa.

    - Toma, toma até o fim!

    Criança gosta de drama, adulto gosta de transformar o drama em trauma. É sempre uma desculpa lá atrás para fundamentar uma preguiça e esclarecer um vício.

    As sutilezas, os detalhes, a normalidade, a rotina são esquecidos. Buscamos somente o estilete no estojo de madeira de nossa infância. Aquilo que corta. Deixamos os lápis coloridos sem nenhum uso. E olha que estavam apontados na última vez que os vi, em novembro de 1984. Psicologizamos em demasiado a memória, a ponto de somente lembrar o que tem impacto. Nossas dores nos tornam reacionários. O verdadeiro revolucionário é o que ultrapassa sua dor e mexe na alegria.

    Tanto que não entendo como os terapeutas continuam usando o mesmo mobiliário de Freud: o divã, o abajur, a escrivaninha, a estante com livros. Igualzinho ao escritório do médico austríaco do princípio do século passado. Não há um decorador na psicologia?

    Velho por velho, por que não colocar uma cadeira de balanço?

    Não troco a cadeira de balanço pelo divã. Com o ritmo e o balanço, falarei bem mais do que deitado.

    Cadeira de balanço é feita para amamentação. Minha mãe me acolheu em seu trançado de vime. Guardo até hoje em minha casa. Serviu aos meus filhos, servirá aos meus netos. Adequada para cólicas e para os choros. Deveria ser enquadrada como um brinquedo, constar na praça ao lado do gira-gira e do escorregador. Tem um andamento precioso de charrete. Criança não dorme mais fácil no carro? Cadeira de balanço é movimento enternecido, um pedalinho dos ventos.

    Mas voltando ao início: o que me irrita na lamúria de quem não foi amamentado é que ninguém evoca a mãe.

    A mãe é apagada dos problemas. Desculpa, a mãe torna-se o problema. É ela é que não amamentou. Parece que fez de propósito, careceu de vontade, de ânimo, de persistência.
    Nas campanhas de saúde e prevenção, escuta-se a obrigatoriedade de dar o leite para seu filho.

    É claro que toda mãe quer. Algumas não podem.

    E quem pensa nelas? São menos mães?

    A maternidade sofre nos meses iniciais em seguida ao parto. Recebe nas costas uma pressão social maior do que o casamento e o baile de debutantes juntos. Depois de superar a apreensão se a criança nascerá bem, arca com a ansiedade do primeiro aleitamento. Subirá leite? Terá condições de alimentar o bebê? Ela é normal?

    Ao fracassar, é como se a criança a recusasse. Uma frustração seca. Sem raízes.

    Na falta de leite materno, ofereça o colo para sua mãe. É ela que precisa.


    Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
    Revista Crescer, São Paulo, P. 52, Número 192, Novembro de 2009


    4:56 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Novembro 18, 2009

    MACHEZA
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Eu tinha um grande problema na escola para demonstrar a minha masculinidade.

    Muitos colegas insinuavam que eu era uma menina. A merendeira rosa, herdada da irmã, agravou as evidências.

    Não fazia nenhuma porquice. Guri mesmo mostrava bafo e não o escondia com as mãos. Guri bom se sujava, voltava do recreio suado do futebol e não se envergonhava. Retirava tatu do nariz, escandalizava as professoras revirando as pálpebras, promovia cusparadas do alto do muro em direção à rua, segurava o saco para impor autoridade.

    E eu, aristocrata do guardanapo de papel, de camisa branca engomada, seguia à risca o pedido materno de obedecer e ser educado. Pedia passagem às cortinas e agradecia a luz das janelas. Gentil até para pisar na grama. Não me familiarizava com a transgressão.

    Vivia próximo do quadro-negro — e só dele. Não tinha aceitação. Tratado como um esquisito, uma criança afeminada, que ora despertava compaixão, ora gerava escárnio. A vergonha ainda enchia de blush a minha cara para piorar a situação.

    Até fingia algum desleixo e diminuir a cobrança. Forçava grosserias. Mas não conseguia superar a prova de fogo da virilidade: arrotar.

    Eu me censurava no sangue. Não sou de uma família que gritava saúde quando escapava o incômodo relincho, os pais penalizavam com “que nojo”, “cadê os modos?”.

    Fracassava miados. Juro que tentei. Gravava fitas-cassete para ensaiar. Não havia jeito: engolia ar, que se dispersava nas palavras. Soltava unicamente brisa, sopro cálido, resmungo. Não ressurgia com nenhum estrondo. Nenhum barulho vulcânico como os estudantes de minha classe. Produzia no máximo um humilhante soluço. A garganta deveria ter algum furo. Uma infiltração de cordas. Minha asma, acredito, enfraquecia a subida.

    Com custo e dor, estapeava o peito, comprimia a barriga, dobrava as pernas, e nada.

    Não cuspia nem pólvora, muito menos o fogo. Os piás reuniam-se no campinho para fazer concurso de arroto. Alegre arruaça, com edições mensais e fama eterna. Eles roncavam, eu ronronava. Compravam uma coca-cola litrão e começavam as apresentações. As meninas aplaudiam os gladiadores da voz. Cada um tinha direito a um solo, a matar o leão no grito. Dois minutos depois de ingerir o gás, lançavam arrotos indescritíveis, letais, mais audíveis que a sineta. Não se esforçavam, transparecia como um movimento natural, assim como bocejar na hora da preguiça. Parecia que o pulmão saltava junto. Eram tenores do arroto. Um espetáculo altissonante de chiados e rancores.

    No momento em que chegava a minha vez, alegava que não estava com sede e vontade. Todos me mandavam brincar de boneca.

    “Vá lá com suas barbies!”

    Pena que nunca participei de disputa de choro. Talvez a poesia seja exatamente isso.


    Coluna no site Vida Breve

    7:46 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Novembro 17, 2009

    DO TWITTER PARA OS LIVROS
    Fabrício Carpinejar lança livros com pensamentos retirados do seu Twitter; vida a dois está entre os temas

    Vinicius Aguiari



    Se escritores fossem jogadores de futebol, Fabricio Carpinejar, 37, preferiria estar no time do futebol de salão. “Nasci para a quadra: passes curtos, atenção extrema e uma partida que pode ser decidida em segundos.” É com essa comparação que ele define a concisão dos pensamentos, frases e aforismos publicados em seu Twitter e que, agora, acabam de originar o livro www.twitter.com/carpinejar (editora Bertrand Brasil).

    Com cerca de 9.000 seguidores, Carpinejar publica em seu perfil considerações sobre o dia a dia, relacionamentos, vida sexual, crises conjugais, entre outros, sempre com no máximo 140 caracteres. “Homem que discute o relacionamento quando sua mulher pede satisfação não entendeu o recado”, diz um deles. No total, o livro traz 416 “twittadas”.

    “O Twitter não é para preguiçosos. Ao contrário do que se imagina, é para quem têm condicionamento intelectual e consegue tensionar o pensamento em pequenas frases”, diz o escritor, que venceu o Prêmio Jabuti de Literatura em 2009 na categoria Contos e Crônicas com Canalha!.

    “Não esperava, foi um assombro. Contentamento de piá que ganha finalmente o cachorro prometido na infância. Dedico-o aos meus pais [os escritores Carlos Nejar e Maria Carpi]. Foi uma espera de 50 anos da família”, completa ele.

    ESPECIALISTA DA VIDA ALHEIA

    Antes do perfil no Twitter, esse gaúcho natural de Caxias do Sul já mantinha um blog, onde publica pequenos contos, poemas e crônicas, sempre recheados de memórias e observações.

    Porém, o grande “hit” de Carpinejar na web é o Consultório Poético, onde ele responde a dúvidas amorosas enviadas pelos leitores. “Recebo cerca de trinta e-mails por semana, com vários dilemas, desde namorada que abomina a fissura do companheiro por filmes eróticos até homem que acabou traído e não consegue se despedir da mulher”, conta.

    Os comentários também costumam ser como as discussões de casais, alguns mais sutis, outros mais exaltados. “Os leitores brigam entre si, colocam seus pontos de vista, admitem falhas, assumem erros, contestam opiniões. É uma tribuna do desejo livre.Não apago comentários. Quando aparecem laranjas para me xingar, faço um bom suco.”

    Por último, o escritor não se deixa abalar por uma possível morte da literatura provocada pela internet. “O blog é o jornal da maioria dos adolescentes. Eles leem textos com a mesma assiduidade dos assinantes da imprensa. Acompanham os textos na rede, os autores, adicionam como marcadores e prediletos, mas não deixam de comprar o livro, para riscar, sublinhar e dar de presente”, diz. “A nudez das revistas e das novelas não diminuiu a nudez da vida real, só aumentou. Portanto, A internet acelerou a fome nas livrarias”, completa esse escritor especialista em analisar a vida alheia.

    Publicado no jornal AGORA SÃO PAULO, E- 12
    São Paulo (SP), 16/11/2009


    11:45 PM :: Comentários:

    NOTÍCIA E ENTREVISTA

    CRÔNICA NO PALCO

    O escritor Fabrício Carpinejar está no novo show de Ana Carolina. Sua crônica Toda Manhã, do livro O Amor Esquece de Começar, é interpretada ao vivo pela cantora e compositora no espetáculo de lançamento do CD Nove – que chega a Porto Alegre amanhã, no Teatro do Sesi.

    Publicado no jornal Zero Hora, Segundo Caderno
    Contracapa, Roger Lerina
    Porto Alegre (RS), 17/11/09, Edição N° 16158


    TVE



    Entrevista dada a Morgana Kretzmann
    Papo de Camarim, Estação Cultura, TVE/RS


    11:39 PM :: Comentários:


    Domingo, Novembro 15, 2009

    PRATINHO DO VASO
    Arte de Marc Chagall

    Fabrício Carpinejar



    Fui numa floricultura comprar pratinhos de vasos.

    Três pratos. De diferentes cores, de azulejo e barro.

    O vendedor me considerou excêntrico pela modéstia do apelo. Procurou enfiar orquídeas olheira abaixo, recusei os arranjos coloridos. Como uma abelha que não larga a lâmpada pela obsessão do sol. Logo me dispensou para o caixa, viu de cara que não tinha potencial aquisitivo. Ele apressou a interrogação do "só isso" e logo fechou a encomenda.

    Estamos tão consumistas que nos desculpamos por comprar pouco (ou nada). Imagina o atendente perder tempo com a gente? Gentileza hoje é comissão. Idêntica culpa diante do motorista de táxi com a corrida curta. Quase suplicamos por favor, se ele pode nos levar. Não há mais pobreza genuína no mundo, unicamente pobreza disfarçada. O cartão de crédito fantasiou a miséria.

    Não receio pedir pouco. O pouco é que me basta. O pouquíssimo transborda.

    Eu me sinto essencial lembrando o desnecessário. Ouvindo o suspiro dentro do vento.

    Ninguém dá valor ao pratinho das plantas que racha na mudança de lugar e não é reparado, muito menos reposto. Eu não vivo sem eles. É como faltar talheres para um membro da família.

    É o pratinho de vaso que me mantém acordado. Deslumbrado pela sua fugacidade. Porque amanhã terei que me lembrar novamente. E depois da amanhã. E sempre.

    O amor é o que não lembramos para continuar lembrando. Como pedir ao filho escovar os dentes ou insistir que faça os temas. Todo dia será exaustivamente igual: é uma atenção renovada, não exclusiva. Uma dedicação nula. Uma devoção secreta que não traz fama e reconhecimento. Coisas simples que não podem ser contadas ou glorificadas durante a semana. Que são apagadas no mesmo momento do ato. Não irei ao bar proclamar aos colegas de que dobrei as calças antes de sair e organizei as camisas pela antiguidade.

    É o que me põe apaixonado numa mulher: o pratinho do vaso. O que é sem graça, o que somente protege, mas que é confidente das raízes. O quanto ela é capaz de estar ao seu lado sem que necessite imortalidade. O quanto me torno observador das inutilidades. Falei inutilidades, pois é, não errei a digitação, quem ama conserva as inutilidades. Os interesseiros e ambiciosos guardarão as informações essenciais como nascimento e medidas. Veja se um homem a quer quando se interessa porque aquilo que não gera interesse. O fútil é o fundamental. No momento em que o desejo não descobre o que é importante e preserva tudo.

    O pratinho do vaso do relacionamento está em saber o xampu que ela usa, o restaurante preferido, o doce da infância, sua mania de comer aipim com mel, o azeite (não é qualquer um), as perguntas que detesta ouvir, como ela gosta de amassar o travesseiro, de que modo escolhe as roupas: se nua ou já com a lingerie, quais os insetos que tem medo, o que não pode deixar de assistir na tevê, o drinque preferido, os amigos da choradeira, os amigos do riso, o que toma no café da manhã, qual a fruteira de sua confiança.

    O pratinho do vaso é o que fica da tempestade. Não tinha como explicar ao vendedor. Ele é que conhece as flores.

    12:51 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Novembro 12, 2009

    IRAJI RESPONDE (E DESCUBRO QUE É IRAGÍ)
    Foto de Iragí com seu filho Guilherme



    "Boa tarde!

    As verdadeiras amizades são assim: você acha que termina mas quando são verdadeiras, elas voltam, às vezes mais fortes do que antes. O primeiro tijolinho foi posto lá na quadra de areão, depois de concreto do Leopoldina.

    Sempre fui colorado. Porém, aquela camisa do Inter que uma vez você me deu, lembro até hoje. Na época o número na camisa era costurado, o 8, é claro do Príncipe Jajá, como era chamado o Jair.

    Nossa amizade nunca foi esquecida, infância com dificuldades, tudo bem, meus kichutes driblavam com maestria tudo isso.

    A felicidade era encontrar todos os dias, você, meu amigo CABELUDO, loiro cabeludo, ou meu parceiro Careca do Nápoli do Leopoldina.

    Esperar sim, por que não? Para nascermos, demoramos 9 meses. A minha espera demorou. Mas fui notado, homenageado na página 2 da Zero Hora. Pelo amigo, acreditem senhores, bom de bola. Acreditem, bom de bola. Quando as amizades realmente são de coração, esperar não cansa. Tarda para aumentar a saudade.

    Deixo aqui um grande abraço para meu amigo que lembro com carinho, e admiração, pelos momentos vividos na minha infância.

    Obrigado, Fabrício.

    abraços
    Iragi ou Maradona (rsrsrs)"


    9:15 PM :: Comentários:

    IRAJI
    Arte de Andrew Wyeth

    Fabrício Carpinejar



    Quando entrei na escola, meu amigo inseparável era o Iraji. Eu tinha certeza de que ele seria jogador de futebol. Barbarizava os meninos das 4ª e 5ª séries com balãozinho, janelinha e meia-lua.

    Cabelos cacheados, baixinho, franzino: tímido fora de campo, destemido com a bola. Tonteava os adversários com ioiô e elástico. Produziu os lances mais bonitos e plásticos da cancha de concreto da Escola Imperatriz Leopoldina. Como companheiro de ataque, ele me tornou melhor do que realmente sou. Algo como Careca ao lado do Maradona no Nápoli.

    A turma o reverenciava como Negrinho do Pastoreio, um capoeirista do meio-campo. Ainda recordo do cheiro do seu uniforme, uma mistura de suor, dois ônibus e cacetinho com manteiga.

    Conhecia seu percurso. Nossa aula começava às 13h30min, mas ele estava na esquina às 11h30min, sentado no muro do outro lado da calçada (visionário, antecipou em uma década a necessidade de um guardinha de rua).

    Eu o enxergava antecipado no horário e o convidava para almoçar. Antes convencia minha mãe, dobrava sua angústia com imprevistos. Ele rebatia que não, que estava satisfeito. Deixava o colega paradinho em seu posto de observação, com a mochila encardida debaixo do braço. Voltava em seguida e perguntava se ele não queria apenas beliscar alguma coisa. Ele aceitava e comia dois pratos.

    Dia a dia, repetíamos a cena. Reproduzíamos a igual negociação sem tirar nem pôr. Ele chegava antes, eu convidava, não aceitava, reconvidava e vinha louco de apetite. Não quis constrangê-lo com a mudança de costume, ele tampouco fez questão de assumir um lugar fixo na mesa.

    Nossa convivência durou até que ele rodou de ano. Depois, foi desaparecendo para aquilo que acreditava que seria o sucesso, já que um olheiro passou na escola para vê-lo atuar e ficou assombrado. Saiu do colégio na 5ª série para atuar no infantil do Inter e estudar no contraturno.

    A vida e o kichute viviam amarrados em suas canelas.

    Na despedida, dei uma camisa do colorado. Ele me abraçou fervorosamente, ainda recordo do cheiro, uma mistura de suor, dois ônibus e cacetinho com geleia. Prometeu que faria o primeiro gol profissional para mim. Eu me guardei na expectativa.

    Iraji, Iraji...

    Nunca tinha visto alguém vocacionado ao futebol daquele jeito. Conseguia embaixadinha com pedras, pinhas e laranjas. Cabeceava bolinhas de tênis com precisão. Seu toque de calcanhar encobria o goleiro.

    Cresci, amadureci, formei família, e não o reencontrei no estádio ou na rua.

    Tive notícia de que fraturou a perna numa dividida na categoria de base e não pôde continuar no clube. Logo ele, que depositou sua escolaridade no esporte.

    Não digeri as fintas do destino, a crueldade com seu talento.

    Depois tive notícia de que trabalhava como porteiro no bairro Sarandi.

    E descubro que, desde a infância, sua verdadeira profissão é esperar, como a de todos nós. Ele continua me esperando. Continua esperando ser chamado, notado, percebido, amado.

    Agora dentro de um prédio.

    Ponho mais um prato na mesa, vá que ele mude de ideia e sinta fome da minha amizade.

    Publicado no jornal Zero Hora
    Porto Alegre (RS), Edição N° 16153, p. 2
    12 de novembro de 2009

    8:12 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Novembro 11, 2009

    QUINZE MINUTOS DE VERDADE
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    O sexo é uma verdade privada que se torna mentira pública.

    Na hora de fazer, a franqueza. Na hora de contar, a distorção.

    Há um mito de que qualquer transa atravessa a madrugada. Não conheço guepardo, mas somente maratonista na cama. Ejaculação precoce é o de menos, o domínio é da ejaculação retardada. Não há um amigo que diga que transou quinze minutos. Nunca. São sempre horas e horas de carícias e afagos e preliminares.

    Ou todos usam Viagra ou todos mentem.

    Não sei se o brasileiro é o melhor amante. Não existe como saber. A única pesquisa de opinião confiável é a feita com Deus após a morte e, até agora, não foram anunciados os resultados. Não há boca-de-urna confiável da intimidade.

    Corre sempre o boato de que o prazer se estende ao canto do galo. Eu olho para a cara dos meus colegas e não enxergo nenhuma olheira, nenhuma fraqueza de manhã. São sobrenaturais. Passam a noite fogosamente, não dormem e ainda acordam sem efeitos colaterais do cansaço. Alguma coisa está errada em mim.

    Pior que fingir orgasmo é fingir que o orgasmo dura a noite inteira.

    Onde anda a modéstia da nudez? A humildade do amor?

    O bocejo, por exemplo, é tão romântico, mas é visto como um sinal de agouro e de tédio. Se alguém vacila, logo se pune e engole uma lata de Red Bull. Abafamos a sedução da preguiça. Uma pena; ao bocejar, o corpo se estica e se entrega como num ato erótico. Nada é mais excitante do que estar desarmado, com o rosto limpo, honesto e real.

    O sexo precisa de mais religião. Pode parecer blasfêmia, mas pede mais religião e menos academia de ginástica. Sexo virou desempenho. É uma atividade muscular, ao lado do cross over e leg press. Uma demonstração de fôlego. Uma competição de quem aguenta mais. De quem pode mais. Uma rivalidade de bíceps e seios. Estamos mais preocupados com a posição do que com o prazer do outro. Os joelhos e braços são anilhas encaixadas nas barras.

    Esquecemos de que o sexo pode ser curto no tempo e intenso na entrega. Já é suficiente meia hora, desde que vivida com a disposição dos detalhes, desde que a respiração seja saboreada e a pálpebra se feche para deixar o lábio enxergar sozinho.

    Parece que sexo exige insônia, exaustão física, tortura, infarto. Eu quero viver pelo sexo, não morrer dele.

    A noite de núpcias é a mesma conversa fiada. Os convidados e os padrinhos farão insinuações aos casados durante a festa: “Hoje é o dia, hein?” Mas no quarto a verdade será sonolenta. Ao invés de gemidos, roncos.

    Depois do casamento, da recepção, da comilança, da arruaça até a luz do sol chegar, das danças e das despedidas dos hábitos de solteiro, como é que o casal vai transar? É desumano. Ou porque os dois estarão embriagados ou porque não se mantêm em pé. O máximo que dá para fazer é uma declaração de intenções.

    — Ai, amor, eu queria tanto comemorar.

    — Eu também, temos uma vida pela frente.

    — Não ficará chateada?

    — Claro que não, eu desejava…

    — Zzzzzzzzzz.

    E ambos entendem que mentir não é tão bom quanto dormir de conchinha.


    Coluna no site Vida Breve

    8:51 AM :: Comentários: